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O Dia dos Mortos
Mas era a mulher, Frida, que o impressionava, a solidão do seu olhar rodeado de flores, uma Gioconda mesoamericana, mais triste porque violada, de que ele sonhou ser pintor. Com 60 anos de distância, os seus corpos foram velados no Palácio das Belas Artes. O fumo das suas cinzas subiu ao mesmo céu da cidade que, juntos, amaram. Descem à terra uma vez por ano para comemorar o dia dos mortos. Hoje, desta vez, encontraram-se. Gabriel Garcia Marquez na fotografia que acompan
Paulo de Lencastre
Nov 25, 20259 min read


Fim de Tarde em Diyarbakir
Quero acreditar que esta bebé vestida de vermelho se vai libertar dos véus negros da mãe para voar, livre, no nosso planeta Terra, e vai ser governada por uma ordem universal que a todos proteja e apenas reprima quem põe em causa a sua paz e harmonia. Ao meu lado uma jovem mãe levanta-se na relva com a filha ao colo. São os seus gestos ágeis a segurar a filha que me fazem imaginar uma mulher nova por detrás do véu. Na verdade o que vejo é um vulto negro com uma fresta que mal
Paulo de Lencastre
Aug 8, 20254 min read


Pantanal
E quando o sacrifício terminou, eles ofereceram-lhe a sua pose linda, que ela levou armazenada na memória para mostrar à sua tribo no fundo das águas. Era o primeiro tratado de amizade, na história do direito da natureza, entre dois sapiens humanos e uma piranha caracídea, imolada em sereia para proteger a família, em troca de sedução.
Paulo Raposo Andrade & Paulo de Lencastre
May 16, 20255 min read


Viagem ao Paraíso
Boa tarde! São dez andares para reencarnar na terra, na companhia de Cali, a deusa mãe negra dos tântricos, que no seu trono, no inferno, julga a morte e a vida na eterna reencarnação da natureza. É que até no inferno pode haver céu. Eles trazem-no juntos. No sorriso. No encanto. Na sedução. Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós também a eles (Jesus, O Sermão da Montanha). Nossa Senhora de Copacabana, pintura cusquenha de autor anónimo do século 18. Rio de
Paulo de Lencastre
Apr 24, 20256 min read


Viagem ao Inferno
A raiva dá-lhe a força para abreviar o martírio. Como o pastor mata uma ovelha querida do rebanho que já ficou velha demais para viver. Depois, aliviado, carregado por Maria Madalena que é muito mais alta do que ele, deita-se na maca. Maria Madalena olha-o com ternura. E ele adormeceu. São Paulo, Vila Mariana. Uma livraria estreita no centro do bairro. Entra-se para um café da manhã copioso. Grupos de participantes conversam. Gabriel Arcanjo é um menino amoroso. Óculos redon
Paulo de Lencastre
Mar 26, 20254 min read


O Mordomo Patriarca
E Severino, de pé, à porta da casa grande, vigia a memória da matriarca. Já não tem de ver quem passa. Só enxerga terras sem fim de cana de açúcar, a perder-se no céu azul de chumbo da noite a cair. Ficam luzes trémulas douradas a cintilar no vazio. 1932 - Em frente era cana a perder de vista. Nascera no Engenho Poeta, na planura ao fundo, para lá da divisa. Eram tudo terras de primos. Quando o pai foi transferido para o Engenho Camaragibe, como cuidador do pomar da casa gran
Paulo de Lencastre
Mar 2, 202513 min read


O Homem de Ferro
Mariana, que já estava doente, deixa-se morrer também. Para não ficar sozinha com o segredo. Para o continuar a partilhar com o pai adotivo, agora e para sempre, no céu. Com a morte de Mariana, a terra de São Tomé ficou apagada da família até hoje. 26 de março de 2024 Já tarde da noite, Osvaldo Pereira, em São Paulo carrega na tecla enter. Paulo Lencastre, em Gaia, recebe o email: – Sei por alguma pesquisa que este senhor Mateus Sampaio é seu ancestral… – É meu trisavô. Por
Paulo de Lencastre
Jan 5, 202516 min read


Viagem na Amazónia
Não caçámos o catitú, mas vivemos todas as dúvidas de um branco civilizado diante da sabedoria de um índio no coração da floresta. Estamos completamente dependentes do madihan que nos guia. Banú “amouni”, companheiro, é o nosso líder. Janeiro de 2004 Sexta feira, dia 16 de janeiro A viagem A vermelho - a localização da tribo Deni na Amazónia. Saímos de Porto Velho às 6h da manhã. Somos dois homens e uma mulher. O hidroavião está à nossa espera no rio Madeira, comandado pelo M
Paulo de Lencastre
Dec 7, 202417 min read


A Mangueira do Rio Vermelho
Onde Jorge Amado entronizou a sua sombra como o paraíso da casa, lugar eterno onde podemos descansar, sem foices nem martelos, nem estrelas redentoras em bandeiras, só com o arco e a flecha de um índio cupido apaixonado por uma sereia. A mangueira morreu. Teve de ser cortada. Mas já do seu tronco brotam ramos, folhas e flores. Na terra descansam as cinzas de um poeta e da sua amada. Um sapo gigante sai da terra, é o guardião do cemitério. “Aqui, neste recanto de jardim, quero
Paulo de Lencastre
Oct 26, 20246 min read


A Minha Garota de Ipanema
Um dia chega uma carta a Ipanema vinda da Alemanha. A guerra tinha terminado. Estavam salvos. Tinham ficado no lado certo do destino. Trocaram fotografias dos filhos que entretanto nasceram. Marita na praia de Ipanema, Jürgen na neve segurando os skis. Praia de São Francisco, Niterói, Rio de Janeiro (1968). Rua Garcia de Ávila, Ipanema, Rio de Janeiro (2024). Um casal chega para a sua refeição do fim do dia. É um café bem moderno, proposta saudável, “brunch all day”, estilo
Paulo de Lencastre
Oct 2, 20248 min read


O Senhor do Deserto
Abrira os olhos no oásis de Garmeh, onde ruas e casas tinham a mesma cor do deserto, como se fossem construções de areia feitas pelos filhos dos deuses numa praia imensa entre a terra e o céu. “No coração do deserto de Dashte-Kavir, o imenso oásis de Garmeh é uma ode à vida, graças a uma simples nascente que brota por baixo da montanha, onde cardumes de pequenos peixes nadam contra a corrente em busca de alimento. A pequena aldeia, hoje com pouco mais de 200 habitantes que ai
Paulo de Lencastre
Jun 30, 20245 min read


A Matriarca
Diluíra-se na água que escorreu para a terra? Ou eram os seus olhos que estavam a ficar baços demais? Talvez fosse mesmo Lakshmi a chamá-la, como Anshi pedira a Vishnu seu marido? Adormeceu a olhar para o lume a ouvir a chuva bater. E sonhou que tinha morrido. Fotografia de Bharat Gupta. O marido morreu. Já tinha feito cem anos. Rezou a Vishnu, o deus misericordioso, conservador do universo, para que o reencarnasse num antílope negro. E que a viesse buscar em breve para corr
Paulo de Lencastre
Jun 21, 20245 min read


A Última Geração
Iria nascer um ano depois, a nona filha de uma mãe a duvidar do futuro, a ter de ensinar na escola, em inglês e hindi, que o português e a religião cristã afinal já não eram a única forma certa de falar com Deus. Silvana chegara demasiado apressada na sua scooter para perder tempo com protocolos. Olhou para a mulher à sua frente. Tinha-lhe sido recomendada pela cônsul de Portugal em Goa para a acompanhar em Damão. A mulher era mais velha do que ela, talvez dez anos. Pela roup
Paulo de Lencastre
Jun 2, 20248 min read


As Mulheres Himba
Aconchegados nos seus peitos caídos, dormiam bebés de cabeças rapadas. Estas são as mulheres Himba, nómadas resistentes, filhas da terra vermelha do norte da Namíbia. Tínhamos chegado há pouco mais de duas horas a Windhoeck, capital da Namíbia, depois de uma viagem de vinte e uma horas de camioneta. Ao passearmos na rua, desembocamos numa feira de bijutaria africana. Passava e olhava discreta, sem parar. Estava em território novo, sentia-me intimidada, e desconfiava que, se m

Teresa de Lencastre
Mar 8, 20243 min read


As Ilhas de Pahar Ganj
Famílias inteiras empoleiradas em motas. Indianos sábios ou gurus a tirar selfies. Vacas a pastar no meio da rua como se fossem cães vadios. Palácios riquíssimos transformados em prédios podres. Entre carros, pessoas, lixo, vacas, cães, gatos, comida, tecidos, bicicletas e tudo o que possa caber numa rua… Um hostel recolhido numa via estreita, alheio à confusão dantesca do bairro de Pahar Ganj, em Nova Deli. Fico a pensar se não será uma tendência por aqui: com as vias prin

Teresa de Lencastre
Feb 25, 20242 min read


Viagem ao Tantra
As suas figuras, mulheres, homens, bichos e deuses, entrelaçados, sorrindo, elevando-se em pirâmide ao céu, são um hino à eterna criação. Nada se perde, tudo se transforma. Hoje são um símbolo do tantra. Khajuraho, março de 2023 A menina pergunta ao velho sábio: – Swami, o que é o tantra? O homem olha para o infinito e começa a dizer. O tantra somos nós. São as aves e os peixes, a mulher e o homem, o sol e a lua. Há três olhares no universo: o yantra, o mantra e o tantra. O y
Paulo de Lencastre
Feb 18, 20248 min read


O Olhar do Dalai Lama
São filhos do lugar, dos vendedores de tudo, de fruta, de comida, de malhas de lã do Tibete, de sedas, de estátuas de Buda e dos deuses da Índia. São filhos dos pobres e dos aleijados que ali pedem, das árvores que ali crescem, das almas que ali dormem. Estamos em Dharamsala, sopé dos Himalaias. Mais no alto manchas de neve brilham ao sol. Subimos a pé a colina do mosteiro onde vive o Dalai Lama. Os peregrinos vão subindo. Hoje é dia de celebração. Muitos como nós vêm curioso
Paulo de Lencastre
Feb 11, 20243 min read


A Irmã Rosarina de Varanasi
A Índia dos deuses pode ser cruel para os doentes, para os estropiados, para os mendigos. Estão a pagar nesta vida o mal que fizeram em vidas passadas. Jesus, que acolhe e cura o leproso, o cego, o paralítico, pode assim ser visto aqui como um deus dos desvalidos. Nicholas é um velho francês de barba branca: por falar francês e ser da minha idade, conversamos de imediato. Vem com a mulher todos os anos passar 3 meses a Varanasi. De janeiro a abril por causa das monções. Depoi
Paulo de Lencastre
Feb 4, 20243 min read


Mente Curiosa
Será uma espécie de fêmea híbrida, qua acumula formas de muitos tempos idos, adormecida, paralisada porque guarda sagradamente no seu imenso ventre todo o bem e o mal produzidos pela condição humana? A velha mulher adormecida à porta do templo hindu está morta ou sonha? A mim trouxe-me logo à memória uma história que a minha professora de yoga viveu e me contou quando cheguei à Índia. Um dia viu uma mulher, que podia ser esta quando ainda era fértil, a dar à luz um filho num
Paulo de Lencastre
Jan 28, 20243 min read


Um Olhar Novo ao Império
Mangueiras centenárias continuam a sombrear as ruas. A cidade é plana e calma. As pessoas circulam nas ruas em completa paz, como se a decrepitude física das calçadas em nada alterasse a personalidade respeitável dos seus moradores. Escrevo estas linhas na esplanada da Pastelaria Império, em Bissau. Em frente está, serena, a Praça do Império, hoje oficialmente Praça dos Heróis Nacionais. No centro da praça ergue-se um grande pilar de pedra que me lembra o monumento às descobe
Paulo de Lencastre
Jan 21, 20244 min read
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