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As Mulheres Himba

  • Writer: Teresa de Lencastre
    Teresa de Lencastre
  • Mar 8, 2024
  • 3 min read

Updated: Nov 4, 2025

Aconchegados nos seus peitos caídos, dormiam bebés de cabeças rapadas. Estas são as mulheres Himba, nómadas resistentes, filhas da terra vermelha do norte da Namíbia.

Tínhamos chegado há pouco mais de duas horas a Windhoeck, capital da Namíbia, depois de uma viagem de vinte e uma horas de camioneta. Ao passearmos na rua, desembocamos numa feira de bijutaria africana. Passava e olhava discreta, sem parar. Estava em território novo, sentia-me intimidada, e desconfiava que, se me debruçasse sobre alguma pulseira ou anel, teria de lidar com a minha timidez de estrangeira. Tentei passar despercebida… Em vão.


–Here blond, here! – chamavam as vozes quase em uníssono, do meu lado direito. –Here, here! Come, see! – A esta altura já tinha desistido de não parar: as vozes eram de cinco mulheres seminuas, decoradas de colares, pulseiras, braceletes e todo o tipo de fios de missangas e sementes. O corpo era coberto por “otjize”, uma pasta de manteiga, gordura e ocre vermelho. Na cabeça, a mesma pasta espessa dividia o cabelo em rastas finas. Ao final de cada rasta, o cabelo escuro saía frondoso e cheio de força. Aconchegados nos seus peitos caídos, dormiam bebés de cabeças rapadas. Estas são as mulheres Himba, nómadas resistentes, filhas da terra vermelha do norte da Namíbia.



Sentei-me de cócoras para ver a bijutaria: queria estar mais próxima delas. Ainda tímida, peguei numa pulseira, sem que pudesse prever a consequência imediata do gesto. –Here, take this one! – diziam as vozes mais alto, enquanto via o que me pareciam ser milhares de mãos a puxar-me e a apertar-me pulseiras nos pulsos. Já devia ter mais de dez em cada braço. –Here, this! – continuavam elas, à medida que me enchiam também os braços de barro. No meio daquele frenesim ciganesco, acabei por concordar em comprar, claro, mas nem me apercebi direito do valor acordado. Tinha sido engolida.


Comecei por pagar quatro pulseiras às duas mulheres sentadas à direita. Passei-lhes o dinheiro para as mãos e continuei a conversar com as mulheres da esquerda, a quem ia comprar mais duas. Antes, perguntei se podia tirar uma fotografia com elas, aproveitando o seu total à vontade comigo e a sua receção calorosa. –Yes! Take with the baby too! – respondeu com espírito prático a mulher mãe da esquerda. Já quase confortável, saltei para o lado de lá e sentei-me entre as mulheres da direita e as mulheres da esquerda.


O meu pai estava responsável por tirar a fotografia e eu, como elas, por esboçar um sorriso e olhar para o telemóvel. De repente, reparei que as duas mulheres a quem tinha acabado de comprar não estavam prontas para a fotografia. –Look at the pictures, girls! – disse eu, orgulhosa por ter conquistado aquela intimidade. Nada. –Girls, the picture! – repeti, e desta vez toquei no braço da que estava mais perto. Nada, continuei a ser ignorada.


Demorei alguns segundos até perceber o que estava a acontecer. Ri-me de mim para dentro, porque a minha curiosidade ingénua tinha precipitado a avaliação daquela relação. Já tinha comprado as pulseiras. Já tinha perdido o meu tempo de antena. Voltei-me de novo para a câmara, conformada, e tirei, em rápidos segundos, a fotografia com as duas “amigas” que ainda me restavam. Era esse o acordo.


Já tinha visto mulheres parecidas com as Himba em algum lugar, talvez na Internet ou numa revista da National Geographic. A minha feliz ignorância tornou aquele momento numa caricatura ingénua do encontro de civilizações.


Windhoeck, Agosto 2016

Teresa de Lencastre

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