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Pantanal

  • Paulo Raposo Andrade & Paulo de Lencastre
  • May 16, 2025
  • 5 min read

Updated: Aug 29, 2025


E quando o sacrifício terminou, eles ofereceram-lhe a sua pose linda, que ela levou armazenada na memória para mostrar à sua tribo no fundo das águas. A beleza da arte conquistou o peixe, que parecia sorrir para os homens com os seus dentes de serra.

A Sereia do Pantanal


Numa tribo para aí de vinte homens eles eram dois anormais. Ela percebeu logo quando saiu da água pescada pelo piloteiro. Um queria desenhá-la. O outro queria soltá-la rápido porque estava a ficar com falta de água. Nas suas memórias ancestrais de outras vidas só lhe vinha à cabeça o dia em que um padre franciscano fez um sermão aos peixes para lhes explicar como se podia entrar no reino dos céus. 


Dessa memória ficou na ideia que o seu primo pacu podia entrar mais depressa do que ela, porque tinha dentes de homem, não eram de serra como os dela que matavam até bois. Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles será o reino dos céus. Os homens inventaram o céu para eles, porque não têm dentes de serra. Quem tem dentes de serra vai para o inferno, como seu amigo jacaré com quem fala algumas vezes do assunto quando se encontram no meio do lago. Com o jacaré ela entende-se, seduziu-o porque não o pode morder, e hoje são amigos e ele não a come. 



Ao contrário dos seus primos macacos, os homens são inimigos. Foram feitos para subir às árvores e comerem frutos, e se fosse assim não havia problema de virem para o Pantanal. O problema é que ao evoluírem mudaram o cérebro, inventaram anzóis, flechas, e até paus cospe fogo que matam os jacarés e as onças pintadas, que eram os filhos dos deuses daqui. Os homens mais antigos, de pele vermelha, nem eram os piores, só usavam arcos e flechas. Os piores foram os de pele branca, vindos de mais longe, do mar, de barco pelo rio acima, à procura das pepitas douradas que brilhavam no fundo das águas. Coaram até à exaustão as areias brilhantes do rio, e esventraram a terra à procura de mais. Derrubaram matas, mataram os bichos da selva de forma covarde, à distância, com espingardas, e os da água com barcos, redes e anzóis, a rodar à volta dos peixes para os entontecer. 


De quem ela mais tem pena é dos bichos que passaram a depender dos homens para sobreviver. Que os homens meteram no céu com eles, escravizados, para terem comida à mão, sem esforço, virando ventres de gordura que já nem conseguem correr. Domesticaram a genética a lobos e a gatos selvagens, a javalis e a bisontes, a galinhas do mato, e até a irmãos peixes como as tilápias do Nilo que trouxeram de África, criadas em jaulas submersas no meio do rio. Chora pelos flamingos rosa e as araras azuis que roubaram ao céu do Pantanal, para viverem engaioladas em zoológicos de terras frias de fim do mundo. Tem dó até do papagaio que lhe conta estas histórias e já nem sabe pensar, abobalhado porque vive com os homens, a falar a língua deles.      



Os homens tornaram-se perigosos para a mãe natureza. Enchem-na de plásticos e de metais que não se degradam. Os rios ficam sujos a cheirar mal. E o resto dos bichos têm de viver neste lixo pestilento que lhes envenena o alimento e a beleza em que nasceram. Para já não falar de florestas inteiras de árvores dizimadas, que não sabemos como pensam, mas que são seres vivos como nós. 


Por isso, ela, apesar de não ser boazinha, gostou destes dois humanos anormais. Que se encantam com a natureza, com a sua beleza espontânea, que não a destroem. Que a olham com ética, porque o bem e o mal têm a ver com proteger a natureza. Que sabem que a natureza é de todos, e que cada um que chega tem o seu pequeno destino a cumprir num ecossistema que existe há biliões de anos. 


Quando percebeu a intenção dos dois amigos, fez com eles um pacto tácito. Transformou-se em sereia, fechou a boca para esconder os seus dentes afiados de piranha, olhou-os com a serenidade dócil do seu primo pacu, e adoçou feminina o corpo ao pano branco que o piloteiro estendeu no banco da canoa para a amortalhar. O sol iluminava-lhe as escamas amarelas em matizes fantásticos de todas as cores do arco íris. O artista desenhou-a com devoção. O filósofo fazia de médico para lhe vigiar a apneia. E quando o sacrifício terminou, eles ofereceram-lhe a sua pose linda, que ela levou armazenada na memória para mostrar à sua tribo no fundo das águas. Era o primeiro tratado de amizade, na história do direito da natureza, entre dois sapiens humanos e uma piranha caracídea, imolada em sereia para proteger a família, em troca de sedução.   

           

Tinham vindo num grupo pescar ao Pantanal. Partilhavam a intimidade apertada de uma cabine do barco grande, um no beliche de cima, outro no de baixo. Acordavam com os outros, mas faziam programa à parte na sua canoa, com o seu piloteiro, a quem foram passando o seu olhar. Suportavam com dificuldade o fim do dia, quando os colegas pescadores mostravam os quilos de cadáveres que tinham arrancado à paz do rio. E que agora os piloteiros decapitavam e esventravam num banho de sangue lavado nas águas. Ao jantar esqueciam e comiam sem sensação de pecado. Afinal estavam no céu que deus dera aos homens. Mas quando nessa noite serviram uma grande travessa de piranhas e pacus fritos, olharam um para o outro, fizeram um sinal da cruz pelas almas amontoadas dos falecidos, e pediram à sereia com quem tinham assinado o pacto que perdoasse à espécie humana, enquanto por cá andasse, todo o mal que fazia à terra.



A sereia, como eles, acredita que o Deus do universo um dia pode passar pela terra. Tem biliões de astros para visitar. Mas como é infinito, pode ser que um dia repare nesta poeira minúscula do seu reino. Como nem deve ter espaço para aterrar, talvez apenas a sobrevoe, numa arara azul grande quase extinta pelos homens. E se estes primatas ainda existirem, é bem possível que ele mande as últimas onças caçá-los, porque são carne boa para elas comerem e se voltarem a multiplicar. Nessa altura a piranha vai pedir aos seus primos pacus que falem com Deus, que deixe os dois anormais vivos para conservar a espécie, cruzados com duas fêmeas de australopiteco trazidas de África, que nunca sofreram daquela degeneração cerebral.  



Corumbá, setembro de 2011

Paulo Raposo Andrade e Paulo de Lencastre    


Nota: O pantanal do Rio Paraguai é a maior planície alagada do mundo, com cerca de 200 000 quilómetros quadrados, o dobro do tamanho de Portugal. Distribui-se 150 000 pelo Brasil, 30 000 pela Bolívia e 20 000 pelo Paraguai. Era habitado por índios da linguagem tupi guarani quando os primeiros portuguesas chegaram em 1524, à procura do ouro que os índios já usavam para fazer adornos. Corumbá, lugar distante em tupi, é a cidade que fundaram junto ao rio, na fronteira com a Bolívia, para impedir que os espanhóis entrassem para roubar o ouro. Atraiu muitos imigrantes europeus e tornou-se no num dos maiores portos fluviais da América do Sul. 



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