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O Dia dos Mortos

  • Paulo de Lencastre
  • Nov 25, 2025
  • 9 min read

Updated: Dec 8, 2025

Mas era a mulher, Frida, que o impressionava, a solidão do seu olhar rodeado de flores, uma Gioconda mesoamericana, mais triste porque violada, de que ele sonhou ser pintor.  Com 60 anos de distância, os seus corpos foram velados no Palácio das Belas Artes. O fumo das suas cinzas subiu ao mesmo céu da cidade que, juntos, amaram. Descem à terra uma vez por ano para comemorar o dia dos mortos. Hoje, desta vez, encontraram-se.    

Gabriel Garcia Marquez na fotografia que acompanhou o seu caixão no funeral do Palácio das Belas Artes na Cidade do México em 2014.  

Frida Kahlo em fotografia tirada pelo seu pai em 1932.

 

Cidade do México. Cidade de Frida Kahlo. Cidade adotiva de Gabriel Garcia Marquez. Cidade em festa em memória dos seus mortos.

 

Coyoacán é um bairro boémio, berço de artistas. Numa calçada da praça central do Jardim Centenário passeia Frida, morreu ali com 43 anos, nova e linda. Cruza-se com Gabriel, morreu aos 87, com alguns sinais de memória senil. Mas reconheceu-a, claro. Sempre a admirou em vida, embora nunca a chegasse a conhecer. Quando Gabriel chegou ao México Frida já tinha morrido, e o marido viúvo também. Mas quis o destino que fosse morar muito próximo das casas onde moraram, em Coyoacán primeiro, e depois em San Angel. Gabriel visitou-lhes as casas transformadas em museus, os seus pincéis e tintas, os seus cavaletes, eram seus vizinhos, conheceu-lhes a intimidade. Diego Rivera era um bom pintor, um bom muralista de intervenção política e retrato social, partilhava com ele a mesma vontade de acabar com a exploração capitalista, mesmo que vivendo nela. Mas era a mulher, Frida, que o impressionava, a solidão do seu olhar rodeado de flores, uma Gioconda mesoamericana, mais triste porque violada, de que ele sonhou ser pintor.    

 

Convidou-a galante para tomarem um café quente de olla ou um chá fresco de tamarindo. – Dava para escrever um romance sobre ela?


Frida gostou do galanteio. Gostava de o ler. Escrevia como ela pintava. Começou a posar para ele a sua história e ele começou a esboçá-la…


Frida nasce numa família de classe média no bairro de Coyoacán. O pai era um fotógrafo alemão imigrado que fotografava edifícios para o ditador da época. Ficou viúvo muito cedo de uma jovem e doce menina, que lhe deu as primeiras raízes mexicanas, mas que não conseguiu sobreviver a um parto anunciado. Casou de novo. A mãe de Frida era uma mestiça filha de um padre espanhol e de uma índia zapoteca das montanhas do vale central de Oaxaca, a capital do dia dos mortos. Tinha mais 11 anos do que ele. Era robusta, deu-lhe quatro filhas que sobreviveram, e uma que morreu antes de fazer um ano. Frida foi a terceira filha, nasceu quando a mãe já tinha 46 anos, e ainda teve a última filha um ano depois.


Frida viveu uma infância feliz atravessada de dor. Aos 6 anos teve uma paralisia infantil que lhe deixou a perna direita mais curta e mais fina, a precisar de um sapato especial para disfarçar o andar. Aos 18 anos, à vinda do colégio, foi trespassada pelo corrimão do autocarro em que vinha, embatido por um elétrico. Atravessa-lhe as costas e sai pelo ventre, fratura a coluna, esmaga-lhe a pélvis, parte a perna direita e estilhaça-lhe o pé. No hospital ficou imobilizada num colete de gesso durante muitos meses, virada para cima, sem se poder voltar. Via o mundo por um espelho preso ao dossel da cama que a mãe lhe pendurou. O pai montou-lhe um cavalete adaptado à cama. Aí começou a pintar autorretratos, como aprendera a fazer com o pai em fotografia. Já antes, quando foi da poliomielite, o pai ensinara-lhe a nadar e a andar de bicicleta. Não morreu por milagre, engravidou três vezes, e das três vezes perdeu os fetos…


O meu segundo acidente foi ter casado com o Diego Rivera. Era um homem apaixonado, que me apaixonou. De idade podia ser meu pai, vinte anos mais velho, dois divórcios antes. – É um elefante a cruzar com uma pomba branca… nesse dia a minha mãe saiu de nossa casa para não assistir à cerimónia civil. Foi rezar à igreja de Santa Catarina ao nosso lado, mártir e sábia, a pedir que velasse por mim. Ele era um homem criança, grande e gordo, volúvel, infiel, e sedutor. Até me traiu com a Cristina, a minha irmã mais nova, a alma gémea que tive na vida. Morávamos ao lado. Ela deu-me os filhos que eu não podia mais ter. O pai foi um fotógrafo nosso conhecido. Depois dele nos deixar um casal de filhos e ir embora, ficamos de facto uma família triangular, a Cristina, o Diego, e eu… com a Isolda e o António a garantirem-nos a eternidade.


A minha mãe Matilde Calderón era mais índia que cristã. Trouxe de Oaxaca o culto dos mortos, que nos faz estar aqui a beber este chocolate quente que acabamos por pedir. O “mole nero” (1) de chocolate indígena da minha avó sem nome foi a placenta que gerou a minha mãe, e me gerou depois a mim. O meu avô padre Calderón foi só um semental branco vindo de Espanha, este “churro” (2) que agora mergulhamos no chocolate fumegante para o podermos comer. E que eu aprendi a saborear quando a minha mãe nos levava ao cemitério, para aquecer as noites dos mortos, no meio de grinaldas de flores laranja, dos mariachis a cantar a La Llorona (3) entre as tumbas, e de uma garrafa de aguardente “mezcal” (4) de cato cozido, em memória dos nossos mortos para oferecer aos convidados.  


O meu pai foi outro churro branco na minha genealogia, um artista suave e rigoroso vindo da Alemanha. Era um filho grande e um amante terno da minha mãe. Como também foi para mim. Chamava-se Wilhelm Kahlo, mas mudou para Guillermo quando chegou ao México. Eu era a sua filha predileta, de quem ele mais cuidou porque fui a que mais sofri. Tinha perdido a mãe judia em adolescente, e com 20 anos emigrou, escorraçado pela madrasta que convenceu o pai, um joalheiro de origem húngara, a pagar-lhe um bilhete de navio sem retorno com a promessa de nunca mais voltar. Percebeu que eu estava apaixonada e conseguiu convencer a minha mãe a deixar-me casar com Diego – achava-o inteligente – em nome da liberdade.    


Gabriel estava apaixonado. Pensara nela tantas vezes a escrever os seus Cem Anos de Solidão quando chegou ao México. Era a sua avó jovem quando era menino, e a sua mãe linda quando era rapaz. Frida era a musa do México que o acolheu, que o viu florir para o mundo dos vivos, e que o sepultou. Hoje vivem na Cidade do México, unidos pelo destino e pela memória que deixaram nos vivos. Com 60 anos de distância, os seus corpos foram velados no Palácio das Belas Artes. O fumo das suas cinzas subiu ao mesmo céu da cidade que, juntos, amaram. Descem à terra uma vez por ano para comemorar o dia dos mortos. Hoje, desta vez, encontraram-se.  


Afinal nunca moraram longe. Frida nasceu e morreu na sua Casa Azul de Coyoacán, construída pelo pai, que ela pintou de azul cobalto quando casou, e onde se refugiou quando se separou do marido e o deixou sozinho em San Angel. San Angel e Coyoacán ficam muito próximos na imensidão da cidade. Frida veio morar com o pai. E quando o marido voltou e o pai morreu nunca mais abandonou a Casa Azul. Diego, viúvo, quando ela morreu, guardou-lhe as cinzas no quarto, na barriga de um sapo de barro vermelho, um “sapo-rana” como ela lhe chamava com desdém e carinho. Fez da Casa Azul o museu de Frida, não se achou digno de lá ficar, e voltou para a memória dos seus primeiros amores felizes em San Angel, para morrer e ir ter de novo com ela.


Poucos anos depois Gabriel chega ao México com a mulher, um filho, e sem dinheiro. Escreve com desespero Cem Anos de Solidão num sonho utópico de grandeza. Mercedes poupa tudo o que pode para alimentar a família. A obra nasce num sucesso impensável. Podem trocar a morada humilde no centro da cidade pelo bairro artista de Coyoacán. E depois, ele já consagrado, mudam-se para uma boa moradia na Calle Fuego no vizinho e elegante San Angel. É lá que Gabriel morre, a 1 km de distância da casa museu de Diego. Prémio Nobel, uma parte das suas cinzas são levadas para Cartagena das Índias, a pedido do governo da Colômbia, para não o perder para sempre na memória nacional. Era a cidade onde foi escrever o Amor em Tempos de Cólera, o seu último romance, em memória do seu pai e dos amores da sua mãe. 


Porque não fazer agora de Frida sua mulher? Não era uma infidelidade com Mercedes. Adorou-a até morrer. E ela pouco tempo aguentou ficar sem ele em vida. Mas agora, depois de mortos, davam-se a liberdade poética de terem amores com almas gémeas que lhes adoçassem a solidão. Era assim no Paraíso dos mortos.


Arriscou e pediu-lhe para casar com ele no romance. Para redimir Diego, eram vizinhos… E ela aceitou, com ternura, a pensar que podia ser a nova mãe dele. Ele contou-lhe que a mãe morrera com 97 anos, depois de o dar à luz em Aracataca, em Macondo no romance. Coyoácan podia ser a sua Macondo urbana. Com Frida. Estava órfão, tinha só 75 anos. Precisava de uma Mãe.



Cidade do México, outubro de 2025 

Paulo de Lencastre


Notas culinárias:

(1) O “mole nero” é um molho castanho escuro, quase negro, denso e pastoso, feito à base de cacau, que cobre um cozido de carne de galinha, peru ou vaca, acompanhado de arroz branco.

(2) O “churros” foram trazidos de Espanha para o México e tornaram-se o acompanhamento preferido do chocolate quente indígena, a sobremesa das noites frias, como as do dia dos mortos.

(3) “Todos me dizem o negro, Chorona, negro mas carinhoso,

        Eu sou como o chile verde, Chorona, picante mas saboroso… “

La Llorona é uma música inspirada no mito da mulher deusa mãe que chora pelos filhos mortos. As suas raízes perdem-se na noite dos tempos dos povos indígenas da Mesoamérica. Foi transposta para o cancioneiro colonial, e hoje é cantada pelas bandas de mariachis nos cemitérios, nas noites de 31 de outubro e 1 de novembro, quando os mortos descem à terra e as famílias se reúnem em volta das suas tumbas, comendo e bebendo com os seus convidados, até ao nascer do dia. Chavela Vargas (1919-2012), apaixonada por Frida, é a sua maior intérprete.        

(4) O “mezcal” é a bebida alcoólica mais querida da tradição zapoteca de Oaxaca. É uma aguardente branca que resulta da destilação do “agave” cozido, um cato cultivado desde que há memória nas terras mais áridas do vale central.


Cronologia real:

1861 Nasce Matilde Calderón em Cidade do México (mãe de Frida), filha de Antonio Calderón, ex-padre, e de uma indígena zapoteca de Oaxaca (avós maternos de Frida).

1871 Nasce Wilhelm (Guillermo) Kahlo em Pforzheim, na Alemanha (pai de Frida), filho de Jakob Kahlo, joalheiro de origem húngara, e de Henriette Kaufmann, judia alemã (avós paternos de Frida).

1886 Nasce Diego Rivera na Cidade do México (marido de Frida).

1891 Wilhelm Kahlo chega ao México, onde se instala como fotógrafo na Cidade do México.

1893 Casa-se com María Cardeña, que morre no mesmo ano do parto, ela e a criança.

1898 Guillermo Kahlo (26 anos) casa com Matilde Calderón (37 anos).

1906 Matilde e Guillermo e as duas filhas do casal mudam-se para a casa que construíram na Calle de Londres, no bairro de Coyoácan na Cidade do México.

1907 Nasce Frida Kahlo y Calderón.

1908 Nasce Cristina Kahlo y Calderón, a irmã mais nova de Frida.

1927 Nasce Gabriel Garcia Marquez em Aracataca (Colômbia).

1929 Frida Khalo (22 anos) casa com Diego Rivera (42 anos) na casa de família da Calle de Londres, pintada por Frida de azul cobalto – a Casa Azul – e vão morar no bairro vizinho de San Angel, numa casa projetada pelo arquiteto Juan O’Gorman, amigo de Diego, a primeira casa funcionalista da América Latina, ao estilo de Le Corbusier.

1929 Nasce Isolda Pineda y Kahlo, filha de Cristina e de Antonio Pineda, fotógrafo conhecido de Frida e Diego.

1931 Nasce Antonio Pineda y Kahlo, filho de Cristina e Antonio Pineda.

1932 Morre a mãe de Frida (71 anos).

1939 Frida e Diego divorciam-se, Frida deixa San Angel e regressa à Casa Azul.

1940 Frida e Diego voltam a casar-se, e Diego vem morar para a Casa Azul.

1941 Morre o pai de Frida (69 anos).

1954 Morre Frida Kahlo na Casa Azul (43 anos), Diego Rivera regressa a sua casa em San Angel, e converte a Casa Azul em casa museu de Frida Kahlo.

1957 Morre Diego Rivera na sua casa do bairro de San Angel (70 anos), transformada mais tarde em museu.

1961 Gabriel Garcia Marquez, com a sua mulher Mercedes Barcha e um filho, chegam à Cidade do México, e vão morar numa casa modesta no centro da cidade. Começa a escrever Cem Anos de Solidão.  

1966 Mudam-se para Coyoácan e depois para a Calle Fuego no bairro de San Angel (a 1,3 Km da casa de Diego Rivera, na Calle Altavista) com o dinheiro do sucesso de Cem Anos de Solidão.

1982 Ganha o Prémio Nobel da Literatura.  

1984 Morre Gabriel Elígio Garcia, o pai de Gabriel (83 anos). 

1985 Publica o seu último romance, Amor em Tempos de Cólera.

2002 Morre Luísa Marquez Iguarán, a mãe de Gabriel (97 anos).

2014 Morre Gabriel Garcia Marquez na Calle Fuego em San Angel (87 anos).

2020 Morre Mercedes Barcha (88 anos). Após a sua morte a imprensa anuncia, e os dois filhos reconhecem, uma filha de Gabriel Garcia Marquez com a jornalista mexicana Susana Cato (1960-) nascida em 1990.

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