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O Dia dos Mortos
Mas era a mulher, Frida, que o impressionava, a solidão do seu olhar rodeado de flores, uma Gioconda mesoamericana, mais triste porque violada, de que ele sonhou ser pintor. Com 60 anos de distância, os seus corpos foram velados no Palácio das Belas Artes. O fumo das suas cinzas subiu ao mesmo céu da cidade que, juntos, amaram. Descem à terra uma vez por ano para comemorar o dia dos mortos. Hoje, desta vez, encontraram-se. Gabriel Garcia Marquez na fotografia que acompan
Paulo de Lencastre
Nov 25, 20259 min read


O Mordomo Patriarca
E Severino, de pé, à porta da casa grande, vigia a memória da matriarca. Já não tem de ver quem passa. Só enxerga terras sem fim de cana de açúcar, a perder-se no céu azul de chumbo da noite a cair. Ficam luzes trémulas douradas a cintilar no vazio. 1932 - Em frente era cana a perder de vista. Nascera no Engenho Poeta, na planura ao fundo, para lá da divisa. Eram tudo terras de primos. Quando o pai foi transferido para o Engenho Camaragibe, como cuidador do pomar da casa gran
Paulo de Lencastre
Mar 2, 202513 min read


O Homem de Ferro
Mariana, que já estava doente, deixa-se morrer também. Para não ficar sozinha com o segredo. Para o continuar a partilhar com o pai adotivo, agora e para sempre, no céu. Com a morte de Mariana, a terra de São Tomé ficou apagada da família até hoje. 26 de março de 2024 Já tarde da noite, Osvaldo Pereira, em São Paulo carrega na tecla enter. Paulo Lencastre, em Gaia, recebe o email: – Sei por alguma pesquisa que este senhor Mateus Sampaio é seu ancestral… – É meu trisavô. Por
Paulo de Lencastre
Jan 5, 202516 min read


A Mangueira do Rio Vermelho
Onde Jorge Amado entronizou a sua sombra como o paraíso da casa, lugar eterno onde podemos descansar, sem foices nem martelos, nem estrelas redentoras em bandeiras, só com o arco e a flecha de um índio cupido apaixonado por uma sereia. A mangueira morreu. Teve de ser cortada. Mas já do seu tronco brotam ramos, folhas e flores. Na terra descansam as cinzas de um poeta e da sua amada. Um sapo gigante sai da terra, é o guardião do cemitério. “Aqui, neste recanto de jardim, quero
Paulo de Lencastre
Oct 26, 20246 min read


A Minha Garota de Ipanema
Um dia chega uma carta a Ipanema vinda da Alemanha. A guerra tinha terminado. Estavam salvos. Tinham ficado no lado certo do destino. Trocaram fotografias dos filhos que entretanto nasceram. Marita na praia de Ipanema, Jürgen na neve segurando os skis. Praia de São Francisco, Niterói, Rio de Janeiro (1968). Rua Garcia de Ávila, Ipanema, Rio de Janeiro (2024). Um casal chega para a sua refeição do fim do dia. É um café bem moderno, proposta saudável, “brunch all day”, estilo
Paulo de Lencastre
Oct 2, 20248 min read


O Tio Pepe
A afilhada fitou com curiosidade o seu rosto pensativo. Aqueles olhinhos ingénuos de 4 anos iriam lembrar-se dele quando fossem grandes? Pepe comoveu-se e chorou de alegria a olhar para ela. Como não sabia rezar, comprava assim a eternidade. Sexta-feira, 9 de dezembro de 1960. São mais uns anos da Joaninha. O tempo passa rápido nesta nossa idade. Pepe conseguira deixar o consultório no Chiado mais cedo, ainda passou na Benard a avisar os amigos. Foi buscar o fiel carocha
Paulo de Lencastre
Aug 4, 202413 min read


O Castanheiro do Fojo
Talvez daqui a 100 anos, quando já não crescerem mais ramos verdes nos meus braços na primavera, eu peça a quem cá more para serrar o meu tronco, fazer de mim aqui uma grande fogueira, e deixar que o vento leve algumas das minhas cinzas até ao Mar. Nasci há quase 500 anos. Menino selvagem no meio dos campos, num prado imenso sem casas próximas. Tinha vários irmãos à volta, e bichos com quem brincávamos. Abanávamos ao vento os ninhos, os gatos vergavam-nos os ramos, os pard
Paulo de Lencastre
Jul 14, 20245 min read


Fado Clandestino
De algum encontro resultou uma amizade improvável, que Eva alimentou com telefonemas e cartas, e que Amália aceitou com carinho porque a vida sombria de Eva teria sido o seu mais provável destino. Há cem anos nascia Amália, a rainha do Fado. Toda a gente sabe o seu nome – Amália Rodrigues, ou simplesmente Amália como o mundo a conhecia. Estou a escrever estas linhas porque li hoje um artigo na revista do Expresso – o semanário que informa Portugal ao fim de semana – dedicado
Nuno de Lencastre
Jun 29, 20244 min read


A Última Geração
Iria nascer um ano depois, a nona filha de uma mãe a duvidar do futuro, a ter de ensinar na escola, em inglês e hindi, que o português e a religião cristã afinal já não eram a única forma certa de falar com Deus. Silvana chegara demasiado apressada na sua scooter para perder tempo com protocolos. Olhou para a mulher à sua frente. Tinha-lhe sido recomendada pela cônsul de Portugal em Goa para a acompanhar em Damão. A mulher era mais velha do que ela, talvez dez anos. Pela roup
Paulo de Lencastre
Jun 2, 20248 min read


Jantar na Arcádia
Terminado o dia de trabalho, deixava para trás o austero edifício da Rua de Sá da Bandeira e fazia com prazer a desordenada Rua de Sampaio Bruno, saboreando o seu fervelho de vendedores de sonhos. O Tio Jorge marcou encontro comigo na Arcádia às seis da tarde. Era um hábito que se intensificara com os meus recém 18 anos encartados e a crise do petróleo de 1973. O Tio Jorge entregava-me o seu Audi coupé de manhã, eu levava-o ao banco, deambulava pela cidade à procura de uma bo
Paulo de Lencastre
Jun 1, 20244 min read


O Avô Mateus
A morte repentina de Mateus deixara tudo em suspenso. As vinhas precisavam de tratamentos, senão não haveria vindima em setembro. A casa precisava de limpeza e até de obras de conforto. Mateus, com a filha Emília e o genro Paulo, na Lapa em Lisboa, entre 1955 e 1957 Dia 17 de fevereiro de 1962. Maria Emília chorava inconsolável. José Paulo procurava que a inesperada notícia telefónica dessa manhã de inverno fosse recebida pela mulher, grávida de dois meses, com alguma serenid
Paulo de Lencastre
May 19, 20248 min read


A Despedida
Um sagui, que o Tio Miguel lhe trouxe do Recife, e que compartilhou a sua vida e o seu bolso de lapela até morrer de cirrose, empoleirava-se no copo. E, de cabeça para baixo, com a leveza de um trapezista, lambia a lágrima doce do vinho generoso, sem grandes interdições. Algum dia de um junho quente de 1985. O Tio Jorge estava no fim da vida. Tinha feito 55 anos no princípio do mês. E tinha estado internado no Hospital de Santa Cruz em Carnaxide, em Lisboa, na sequência de um
Paulo de Lencastre
May 1, 20246 min read
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