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Fim de Tarde em Diyarbakir

  • Paulo de Lencastre
  • Aug 8, 2025
  • 4 min read

Updated: Oct 21, 2025


Quero acreditar que esta bebé vestida de vermelho se vai libertar dos véus negros da mãe para voar, livre, no nosso planeta Terra, e vai ser governada por uma ordem universal que a todos proteja e apenas reprima quem põe em causa a sua paz e harmonia.

Ao meu lado uma jovem mãe levanta-se na relva com a filha ao colo. São os seus gestos ágeis a segurar a filha que me fazem imaginar uma mulher nova por detrás do véu. Na verdade o que vejo é um vulto negro com uma fresta que mal lhe liberta o olhar. A bebé contrasta com a mãe porque está vestida de vermelho vivo e branco. Tem até uma flor de pétalas vermelhas, com pólen amarelo ao meio, à volta da cabeça.


Estou a descansar à sombra da velha muralha de Diyarbakir, depois de uma viagem de 15 dias pelo Curdistão. É a maior nação sem estado do mundo, partida entre o Irão, o Iraque, a Síria e a Turquia. Só não passei pelo Curdistão da Síria, demasiado insegura para se poder entrar.


Corre uma brisa de fim de tarde que nos repousa do dia quente. Tem sido assim todos os dias. Sigo o exemplo dos que aqui vivem, dos muitos turistas do Médio Oriente que por aqui andam, e dos raros ocidentais que logo percebem, como eu, que o ritmo é diferente neste lugar: viver de manhã, hibernar à tarde, e sair quando o calor diminui e a noite se aproxima. O repouso é também mental e dá para refletir.


A filha de vermelho ao colo da mãe de negro surge-me como uma parábola do presente e do que pode ser o futuro. Em Diyarbakir, a capital dos curdos turcos, tanto encontrei o radicalismo negro da niqab islâmica, como jovens mulheres de cabelos soltos, e até de saias curtas, passeando nas ruas cosmopolitas da cidade. A grande mesquita de Ulu, que nasceu como igreja cristã e se tornou em 639 numa das cinco mesquitas mais importantes do Islão, é um oásis na cidade. Lá dentro crianças brincam, jovens homens e mulheres sorriem para os telemóveis, os velhos rezam. Alguns não se distingue se meditam, se já dormem, ou até se morreram abençoados pela frescura das paredes milenares.


Hoje de manhã estive na mesquita de Ulu. Aí confirmei, depois de alguns dias a percorrer outras cidades mais pequenas do Curdistão turco, que a Turquia é, apesar de algum autoritarismo do regime de Erdogam, um país laico e livre. Era um império religioso no tempo dos sultões, tornou-se num estado laico e ocidental com a ditadura de Ataturk, evoluiu para uma democracia de tipo europeu até aos nossos dias. Hoje, “só” está mal quem contesta as fronteiras e quer a independência que as partilhas da história não trouxeram. Tal como os irlandeses do norte com o seu IRA ou os bascos com a sua ETA, os curdos turcos têm o seu PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) perseguido com violência pelo poder do estado que os domina. Vive-se hoje em Diyarbakir como se vive em Barcelona. O problema não é, a meu ver, religioso, mas sim de independência política.


É muito curioso comparar o que vi nos três “Curdistões”.


No Irão, no país dos aiatolas, os curdos estão quase em casa. A sua língua deriva do persa e a sua história funde-se com a grande história do império. –Somos muçulmanos, mas não somos árabes! O Curdistão iraniano é, com alguma naturalidade, uma região do atual Irão. E no atual Irão todas as mulheres têm de andar de cabeça coberta. As pernas também. Eu próprio, homem, nunca ousei andar de calções, porque não vi um só iraniano de calções na rua. Para as mulheres o véu tornou-se um acessório de moda, assim como as meias calças, com designers modernos transformando a velha ortodoxia religiosa em beleza feminina. Andei pelo Irão quase uma semana, desde a capital Teerão às profundezas do Curdistão iraniano, e não vi uma única mulher de preto e cara tapada como a jovem mãe que tenho ao meu lado.

 

No Iraque, um país árabe, os curdos foram perseguidos ao ponto do genocídio químico por Saddam Hussein. Mas a derrota do ditador às mãos dos americanos na guerra do Kuwait valeu-lhes a quase independência que têm hoje. Hoje, o Curdistão iraquiano é uma região autónoma do Iraque, com a língua curda ensinada na escola, com bandeira, parlamento e governo próprios, e visto específico para se entrar. Saddam é considerado um facínora. Os Peshmerga que lhe fizeram frente, vivos ou mortos, são os heróis nacionais. E os americanos, ainda agora empenhados na defesa dos curdos, são salvadores respeitados. Em matéria de costumes, atravessar a fronteira do Irão para o Iraque curdos é encontrar mais liberdade… e desarmonia. Já se vêm mulheres sem lenços, homens de calções, já se pode beber álcool. Já se vê lixo abundante nas ruas, já as casas de banho podem ser nauseabundas. Já há pobres a pedir. Já os que não são pobres deixam de oferecer a sua casa, como no Irão é tão frequente.


E depois chegamos à Turquia! Porque é que esta jovem mulher está de niqab negro, como talvez as fações mais religiosas do atual poder turco preconizem? Porque é que a mãe desta mulher, mais velha, está de cara descoberta como sempre se usou na moderna Turquia laica? Até quando esta menina se vai vestir de vermelho colorido com flores nos cabelos? Vai ser radical como a mãe, moderada como a avó, ou será ela própria, diferente e livre, de cabelo ao vento? Quem lhe vai assegurar a liberdade? Uma democracia ocidental permissiva, mas brutal e desagregadora nos contrastes que gera? Ou uma ditadura oriental, religiosa ou laica, que integra os – muitos? – que a seguem e é brutal para os – poucos? – que a contestam?


Quando eu tinha a idade desta menina, no meu Portugal vivia-se um suave “fascismo”. Quando fiz 18 anos o meu país foi governado rumo a um suave “comunismo”. Vivi a vida adulta a defender a democracia livre da minha querida União Europeia. Quero acreditar que esta bebé vestida de vermelho se vai libertar dos véus negros da mãe para voar, livre, no nosso planeta Terra, e vai ser governada por uma ordem universal que a todos proteja e apenas reprima quem põe em causa a sua paz e harmonia.


Diyarbakir, junho de 2018

Paulo de Lencastre

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