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As Ilhas de Pahar Ganj

  • Writer: Teresa de Lencastre
    Teresa de Lencastre
  • Feb 25, 2024
  • 2 min read

Updated: Nov 25, 2025

Famílias inteiras empoleiradas em motas. Indianos sábios ou gurus a tirar selfies. Vacas a pastar no meio da rua como se fossem cães vadios. Palácios riquíssimos transformados em prédios podres.

Entre carros, pessoas, lixo, vacas, cães, gatos, comida, tecidos, bicicletas e tudo o que possa caber numa rua… Um hostel recolhido numa via estreita, alheio à confusão dantesca do bairro de Pahar Ganj, em Nova Deli.



Fico a pensar se não será uma tendência por aqui: com as vias principais tão saturadas, há construções, como este nosso hostel, que aos poucos vão fugindo para dentro de ruelas onde encontram lugar e recolhimento.


Nestas ilhas (1), em contraste com a confusão das ruas principais, parece que descemos a um subsolo ou estamos dentro de cavernas. Em pelo menos três lugares onde passei hoje o cenário repetiu-se: de repente, enfiamo-nos num labirinto de ruas estreitas e estamos num hotel, num restaurante, numa loja. Não há praticamente janelas ou ruído nestes lugares, porque estamos longe da rua. A sensação é de maior segurança, por um lado, mas também de uma certa prisão. Há pouca luz, há pouco sol.


É impensável a existência de uma varanda com espreguiçadeiras ou de uma esplanada ao ar livre. A forma como se convive com a rua é desconcertante. A confusão é tal que não há espaço para o medo. A sujidade é tal que não há espaço para o nojo. Há apenas a necessidade, espontânea e imposta, de se estar alerta, porque tudo desperta os sentidos.



Hoje vi de tudo nas ruas de Deli. Um grupo de três cegos entrelaçados uns nos outros a andarem pelos milhares de carros. Famílias inteiras empoleiradas em motas. Indianos sábios ou gurus a tirar selfies. Vacas a pastar no meio da rua como se fossem cães vadios. Palácios riquíssimos transformados em prédios podres. Hoje vi de tudo, mas, na verdade, sinto que não consigo ver nada. Não verdadeiramente. Falta-me compreender este lugar. Falta-me saber assimilá-lo.


Em 10 dias a tarefa é impossível. Mas quem sabe aos poucos esta descrição enriquece.



[Na parede do hostel, marcas de um ex-hóspede português levaram-me a tentar explicar a palavra saudade a um dos primeiros indianos que conheci. Uma referência familiar e inesperada à chegada a Deli]


Nova Deli, novembro de 2017

Teresa de Lencastre


Fotografias de Paulo de Lencastre, pai da autora.

Nota do autor:

(1) semelhantes às ilhas, no Porto

Nota do editor:

Pahar Ganj é um bairro da cidade de Nova Deli e a principal estação ferroviária da capital indiana. É conhecido pelos inúmeros hotéis e pensões de baixo custo, restaurantes de rua, além de todo o tipo de lojas, cujos clientes são mochileiros, viajantes indianos e estrangeiros. As Ilhas no título são a comparação da autora com as ilhas do Porto.

2 Comments


Guest
Feb 27, 2024

Muito interessante.

Já estive na Índia, mas não nesse lugar . Parte da descrição corresponde a outros que vi

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Leonor de Lencastre
Dec 30, 2025
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É isso mesmo! Traços comuns com muitas variantes, numa terra imensa. Obrigada 😊

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