A Torre de Oriz
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– À torre não pode subir! A escada de acesso que vinha da casa adossada ruíra com ela. Do piso térreo da torre via ao alto um soalho apodrecido, com frestas iluminadas pelo sol da tarde que procurava seguir com o olhar para recuperar o passado. Apesar de tudo, a velha torre, aristocrática anciã, era a única que naquele caos guardava a dignidade antiga. Como que a pedir ajuda ao seu novo herdeiro.

“No conselho de Regalados, freguesia de Santa Maria de Oriz, comprei a D. Tareja mulher que foi de João de Sousa a quintam de Oriz seus casaes e pertenças e armar e povoar certas casas” (João de Coimbra, Tombo dos Coimbras, 16 de fevereiro de 1530).
Hoje é dia de receber os foros. José Paulo levantou bem cedo o filho da cama. – Paulicas, sacrifício heroico! Havia que partir para Oriz. O avô José Maria vinha de Paços, trazido pelo fiel caseiro e motorista Manuel Veríssimo. Ponto de encontro em Vila Verde, no pequeno café que há muitos anos marcava o início deste ritual familiar.
D. José Maria de Queirós e Lencastre era o 12º Senhor da Casa dos Coimbras em Braga e, com mais algumas gerações, da Torre de Oriz, na freguesia de Santa Marinha de Oriz em Vila Verde. Órfão de pai aos 7 anos, desde muito cedo se habitou a correr os caminhos das suas terras e bens. Nascera em Sanhoane, uma pequena, mas solarenga, aldeia do Douro, filho de uma jovem mãe, bonita e humilde, e de um velho fidalgo, rico de terras, que o perfilhou à hora da morte. Por isso, quando pediu a mão de Haydée, uma menina de família abastada de Paços de Ferreira, agricultores de milho no Minho e de açúcar em Pernambuco, não teve dificuldade em justificar ao Morgado do Rego e de Tapacurá porque estava em condições de casar com a filha. Para além da fortuna, era formado em Direito, com destacada passagem estudantil, associativa e política, por Coimbra.
“Os homens passam, as instituições ficam” (Jean Monnet)
Tiveram dez filhos, mas uma menina morreu criança. Nove filhos cresceram, com quinze anos de diferença entre o mais velho e o mais novo. José Paulo, o quinto filho e o terceiro rapaz, foi o único que herdou o nome do pai. Herdou-lhe também uma proximidade grande, de vida e de valores morais. Eram escuteiros. D. José Maria foi o braço leigo do Arcebispo de Braga para criar os escuteiros em Portugal. D. José Paulo acompanhou o pai até morrer como seu chefe nacional adjunto. E depois abdicou da sucessão natural ao pai para libertar a chefia do Corpo Nacional de Escutas da amarra familiar. Eram religiosamente monárquicos. Eram disciplinadamente católicos. E não eram místicos.
“É preciso florir onde Deus nos semeou” (São Francisco de Sales)
José Paulo casou tarde para acompanhar o pai na administração dos seus muitos e dispersos bens. Era uma administração ingénua, embora sólida. Por princípio não se vendia. Cultivava-se o milho no Minho, a vinha no Douro, o açúcar no Brasil. Imóveis urbanos quase não havia. A grande exceção era a Casa dos Coimbras em Braga, a casa mãe dos Lencastres do norte de Portugal.
A Casa dos Coimbras foi construída por um ancestral e estava na posse da família há 500 anos. Deixaria de estar se o avô José Maria não fosse o herói da sua conservação. Ainda não tinha 20 anos e eis que o poder público decreta que a casa seria deitada abaixo para passar uma rua nova. Numera as pedras, uma a uma, e deposita-as no terreno sobrante, ao lado da capela. Falta-lhe espaço para reimplantar a casa, e vai guardando todas as suas economias para comprar mais terreno. Depois reconstrói, à medida do que pode, a casa original. Só não ficou a obra perfeita porque a fachada imponente, gótica manuelina, teve de ser encurtada, culpa do último vizinho resistente que se recusou a vender.
A família era rica de bens, mas o dinheiro líquido sempre escasseou. Os hábitos na casa e à mesa sempre foram frugais. Carne o menos possível, aquecimento e luz elétrica muito controlados, roupa para os filhos quase igual à dos caseiros. O único luxo não contado era o vinho fino familiar, vindo do Douro, que Haydée casada passou a usar como bebida para todos, os da casa e os visitantes, mesmo para os velhinhos a quem aconselhava diluído em água. Com açúcar mascavo, que vinha em sacas do Brasil, e que era a única guloseima doce autorizada.
Haydée e José Maria foram envelhecendo na paz de Deus, mais que na dos homens, porque as partilhas familiares nem sempre correram bem. Os filhos discutiam muito sobre quem deveria ficar com o quê. Uma irmã solteira de José Maria trocou um sobrinho por outro num testamento polémico, e desde aí a família nunca mais serenou. José Maria, avisado, decidiu a meio dos seus oitenta anos fazer o rol dos bens, atribuir a cada um deles um valor, e por os filhos a escolher. Primeiro os rapazes casados, por ordem de idade. Depois as filhas casadas. A seguir as solteiras. E por fim o filho mais novo, solteiro e padre.
A Casa dos Coimbras, o primeiro bem a ser escolhido, ficou por direito dinástico para o filho mais velho. Seguiram-se com mais ou menos discussão os restantes bens. A Torre de Oriz ninguém a quis, ficou para o filho mais novo, o padre Miguel.
Os foros acabaram em 1974 com a revolução dos cravos. Como justificar nos tempos modernos um direito herdado da idade média em que o senhor do foro recebia da parca riqueza dos súbditos para os armar e se proteger dos seus inimigos? Recebia galinhas, perus, alqueires de milho, salpicões, vinho. Quando o jovem Paulo ia com o avô e o pai receber os foros, já tinham uma lista de conversão destas espécies em dinheiro, com valores muito baixos, quase simbólicos. Lembrava-se de às vezes trazerem uns ovos, uma broa quente, ou mesmo um presunto, cortesia tradicional de um foreiro mais antigo. Era o encontro de velhos amigos, de continuidade de filhos e de apresentação de netos, cúmplices num ritual que parava o tempo. E não dava dinheiro.
A Casa dos Coimbras em Braga, depois da reconstrução do avô José Maria, passou a ser um ativo de rendimento. As paredes quinhentistas das fachadas albergaram dentro um edifício novo, adequado ao conforto moderno. É uma casa única, diferente, quer para habitar quer para comerciar.
“Terra ingrata onde a urze a custo desabrocha, comendo o pó, bebendo o sol, mordendo a rocha” (Guerra Junqueiro)
A Torre de Oriz era o presente mais envenenado que um herdeiro podia ter. Com o fim dos foros perdeu a sua função original. Estava confinada num pátio que pertencia à casa vizinha. Os telhados caíam, os soalhos furavam, as silvas invadiam as juntas secas da pedra e ameaçavam fazer ruir as paredes.
Perde-se no tempo a idade da torre. A lenda conta que foi terminada pelos mouros numa noite luar, em que levaram os picos da ponte de Caldelas para lhe fazerem as ameias. Na verdade deve ter só 700 anos, já é cristã. Datável do século XIV, sabe-se só que foi comprada em 1530 pelo cónego Dr. João de Coimbra, 1º Senhor da Casa dos Coimbras, para assegurar um rendimento estável ao vínculo que instituíra com a construção da casa e da sua capela. Ao contrário da Casa dos Coimbras em Braga, a velha Torre dos Coimbras em Oriz chegou às mãos do padre D. Miguel Ângelo de Coimbra e Lencastre sem glória, nem memória, de terra própria.
“Minha jangada vai sair pró mar, um peixe bom eu vou trazer” (Dorival Caymmi)
Miguel não ia à Torre de Oriz há muito tempo. Fora quando era menino e adolescente, como iam todos os filhos de D. José Maria, que os queria habituar a governar as casas e as terras da família. Mas quando chegou a adulto tornou-se num boémio, coimbrão e lisboeta, arrasador de corações de lindas meninas, boas e más. Aos 33 anos, depois de ter exorcizado tudo na vida, amarrotou simbolicamente o seu último maço de cigarros, e foi para padre. Estava na Suíça, e entrou para uma congregação alemã que o levou pelo mundo fora.
Ao contrário de Miguel, José Paulo sempre seguiu uma vida regrada. Aos 33 anos casou com Maria Emília, uma menina cheia de bens aristocráticos e urbanos, o que o fez abdicar mais tarde de heranças paternas significativas, escolhendo terras que pudesse vender sem complexos de culpa. Paulo foi o seu primeiro filho, depois duas filhas, e só bem mais tarde um último filho rapaz.
José Paulo e Miguel não tinham quase nada em comum. Separados por 7 anos de diferença, o pai José Maria elegeu o ponderado filho José Paulo para tutorar o rebelde filho Miguel. Em Coimbra, quando Miguel chega como jovem caloiro, tem José Paulo como doutor experiente a orientá-lo, desde os horários da missa matinal até às farras noturnas a usar com moderação. Em Lisboa, para onde José Paulo vai trabalhar como funcionário público quando se casa, é ele que recebe do pai José Maria o dinheiro que deverá com pedagogia fazer chegar ao irmão Miguel. Quando Miguel vai para a Suíça, para estudos dúbios e boémia certa, é ao irmão José Paulo que escreve comunicando-lhe a sua “conversão”. – Maria Emília, carta do Miguel, agora é que ele enlouqueceu!
Talvez pela distância e riscos envolvidos, as partilhas familiares do Brasil foram menos democráticas que as de Portugal. Haydée e José Maria decidiram deixar a Casa Grande de Tapacurá ao seu filho segundo, o mais brasileiro, o único que a administrou como senhor de engenho, e que assim a herdou com as suas três irmãs solteiras para assegurar um morgadio possível em tempos modernos. As duas filhas casadas ficaram com as melhores terras de cana, acompanhadas pelo irmão mais velho para não as deixar sem autoridade varonil a negociar com coronéis de usina e jagunços administradores de campo. José Paulo e Miguel ficaram com o que restava, umas terras mais longínquas, separadas da Casa Grande por uma mata virgem. O pai de Haydée batizara-as de Queira Deus quando cem anos antes as plantara de cana para as oferecer à mulher.
A terra de Queira Deus uniu José Paulo e Miguel para a vida económica e eterna. Fizeram uma sociedade, e integraram na sua gestão comum a Torre de Oriz. Miguel escreveu mesmo um testamento simbólico a José Paulo: a Torre de Oriz seria o bem familiar do lado Lencastre que faltava a José Paulo depois das partilhas de Portugal. A aliança dos irmãos atravessava o Atlântico.
José Paulo passou a cuidar da Torre de Oriz com o desvelo habitual. Sem grande liquidez financeira, habituara-se a suprir com presença e mestres fiéis o que lhe faltava em dinheiro. Era assim que geria o extenso património da mulher Maria Emília, a Casa do Fojo com o brasão Neville, as Casas do Cais Novo e da Praça com o brasão Saavedra, a Casa de São Jorge com o brasão Sepúlveda. Tinha o Sr. António trolha, o Sr. Álvaro carpinteiro, o Sr. Magalhães eletricista, o Sr. Clemente picheleiro para acudir a uma telha partida, a uma asna solta, a um cano enferrujado ou a um curto circuito que ameaçava incendiar o velho património. E para alguma dúvida existencial, restauro ou porta nova, manter a telha mourisca ou substituir por telha portuguesa, tinha o seu amigo Fernando Távora, que se tornou o arquiteto da família desde que o Fojo ardeu logo a seguir ao casamento. O futuro deu razão a esta fidelidade de toda a vida, o jovem amigo que propusera à família da mulher para restaurar o Fojo passou a ser o oráculo nacional indiscutível em arquitetura histórica.
José Paulo partilhou os bens pelos filhos quando tinha 65 anos. Não pelo simbolismo da idade, mas por ter morrido nesse ano o cunhado solteiro Manuel Jorge, com quem Maria Emília partilhava os bens familiares. O voluntarismo gastou-o a convencer Maria Emília que era assim que se devia fazer para evitar turbulências futuras entre os filhos, como se habituara a ver no lado Lencastre. Com a mulher, reuniu filhos e genros, e depois de algumas dúvidas e alterações de detalhe, assinaram a “carta de intenções” – preparada e assim designada pelo seu genro advogado – que passou a pautar a distribuição de responsabilidades do agregado familiar.
“Ai quem me dera que eu morresse lá na serra, abraçado à minha terra e dormindo de uma vez” (Catulo da Paixão Cearense)
Fojo e Queira Deus ficaram no lote do seu filho mais velho Paulo. Nesse ano de 1985 nasceu-lhe a primeira filha, Joana, no Fojo, a primeira neta de José Paulo. O avô José Paulo morreria quase de repente doze anos mais tarde, adormecido no Hospital de Santo António no Porto com uma gripe de inverno que degenerou em pneumonia. Joana sempre conheceu o pai a deixar o Fojo e ir ao Brasil tratar de Queira Deus, das terras de além-mar e do seu açúcar.
Joana lembra-se da sua primeira viagem ao Brasil, do apartamento da família voltado para o mar do Recife, partilhado com o tio avô Padre Miguel, o sócio que mais tarde viu incluído nas contas familiares.
Joana começou a ajudar o pai nas contas familiares muito cedo. O Fojo era o ganha pão da família desde que, ainda em vida do avô José Paulo, a quinta passou a ter uma bomba de gasolina nos terrenos de fora de muros com novos acessos à autoestrada. A coluna das receitas, até aí preenchida com vendas de alfaces e tomates, gladíolos e crisântemos, e mais tarde com uma plantação de quivis, ganhou dimensão impensável para uma família sem nenhuma tradição de comércio e serviços. Antigas rendas urbanas, outrora significativas, estavam muito desvalorizadas por leis que impediram os proprietários de as ajustar à inflação da economia portuguesa pós-revolucionária. As receitas agrícolas eram românticas, sendo a vinha a de maior volume, mas também a mais ruinosa se as contas incluíssem os investimentos pagos com vendas de terras menos simbólicas ou com financiamentos a fundo perdido da comunidade europeia.
Quando Joana pegou nas contas, tudo isto era já passado. Vendiam gasolina e gasóleo, óleos, cafés, revistas e cigarros, lavagens de automóveis. Os quivis não rentáveis do coração da quinta foram arrancados para fazer um campo de golfe. Alugavam os terrenos de fora para negócios como uma escola de cães, um horto, um depósito de areias, uma multinacional de hamburgers. De Parada e Agunchos, as quintas da mãe Marina em terras de Basto, vinha algum dinheiro de vinho e de matas. Do longínquo Queira Deus algum de açúcar e gado.
Da Torre de Oriz nem se falava. Depois de, na primeira versão da carta de intenções, Queira Deus ter ficado para o tio Nuno, o irmão mais novo do pai Paulo, mais tarde, por troca com vinhas no Douro, acabou por ficar para o pai, associada a Oriz. Foi a forma que o avô José Paulo encontrou de deixar com um filho só a sua aliança ao tio avô Miguel.
Um dia Paulo quis incluir nas contas mais uma coluna para a Torre de Oriz… – Na verdade a torre não dá receita. – Na despesa? Não Joaninha, porque tem de ficar ao lado do Fojo, de Parada, de Queira Deus… é um património. Ficou na receita, junto aos restantes brasões da família, com esparsas pequenas verbas de sinal negativo quando Paulo ia a Oriz, com o irmão D. Nuno de Coimbra e o primo arquiteto Paulo Figueiredo, para verem como estavam as ruínas da velha torre.
Paulo, pelo menos durante dez anos depois da morte do pai, nunca voltara a Oriz. E só um dia, por aviso do Filipe, primo da Marina e médico em Vila Verde, foi ver o que se passava. O velho presidente da junta de freguesia de Oriz, paciente do Filipe, no meio de uma consulta mais calma, lembrou-se de lhe pedir para interceder junto dos seus parentes porque a torre estava ao abandono e a cair todos os dias.
Ir a Oriz era um caminho de muitas pedras e pouca esperança para Paulo. Quando lá voltou depois da morte do pai, as algumas memórias românticas que ainda tivesse ficaram bem mais sombrias. O pátio de que se lembrava partilhado com a casa da frente estava transformado num aido de porcos e galinhas a pastar restos de comida misturados com plásticos e ferro velho. Até a carcaça enferrujada de um carro enterrado aflorava à superfície. O humilde casal vizinho, amigo de sempre da família, que lhes servia o almoço no tempo dos foros, morrera há anos. Deixaram um filho solteiro, solitário. A casa da frente, que era a alma humana do lugar, estava esventrada de pão e de vida. A casa adossada à torre, onde recebiam os foros, era de facto uma ruína, o telhado tinha caído há muito, e já parte da pedra das paredes esborrava pelo chão.
– À torre não pode subir! A escada de acesso que vinha da casa adossada ruíra com ela. Do piso térreo da torre via ao alto um soalho apodrecido, com frestas iluminadas pelo sol da tarde, que ele procurava seguir com o olhar para recuperar o passado. Apesar de tudo, a velha torre, aristocrática anciã, era a única que naquele caos guardava a dignidade antiga. Como que a pedir ajuda ao seu novo herdeiro. E era por ela que, no seu pragmatismo de empresário familiar, ainda tentava sonhar.
Sonhou que podia fazer um acordo com o vizinho para recuperarem em conjunto o espaço. Apresentarem um projeto que se pudesse candidatar a fundos de reabilitação do património histórico. Cuidarem em conjunto da limpeza do pátio. Trazerem visitantes. O vizinho ser o guardião do lugar e poder ganhar algum dinheiro com o património histórico herdado por ambos.
Um dia o Sr. Carlos ligou a Paulo. Queria falar pessoalmente. Marcaram encontro em Braga, no café ao lado da casa do Filipe, antes do almoço de consoada onde a família ia todos os anos. O Sr. Carlos tinha perdido o emprego num restaurante em Braga, tinha arranjado uma namorada e queria partir com ela. Precisava de vender a casa em frente à torre e claro não falaria a ninguém antes de conversar com Paulo. Pedia um preço, muito alto para as economias da família, mas estava aberto a negociar. – Quem devia ficar com a casa era o D. Paulo. Paulo ficou de levar a Oriz um avaliador de confiança para lhe dar um preço justo que pudesse pagar.
2008 estava a terminar. Três meses antes o mundo ocidental fora abalado pela crise da falência da Lemon Brothers nos EUA. Os preços imobiliários caíram brutalmente porque ninguém aconselhava ninguém a trocar remediadas poupanças por imóveis. Só os ricos podiam aproveitar a baixa, e os negócios da família ainda não estavam nesse rol. Por isso o avaliador amigo que Paulo levou a Oriz, um técnico, mas também um aristocrata, reconheceu a oportunidade da compra. A casa, com data de 1794 na cumeeira da entrada, era um bonito exemplar de arquitetura rural da época. Mas foi categórico a definir como valor máximo um terço do valor pedido pelo proprietário.
“Vão-se os anéis, fiquem-se os dedos” (provérbio popular português)
O Sr. Carlos sentiu-se ofendido. – Não haveria negócio! respondeu ele, mais seguro do que Paulo imaginou. Olhou para o pai em espírito, impotente, triste por não poder comprar a casa, inseguro por não saber quem seria o novo vizinho, conformado com o destino de ter herdado uma torre sem terra, uma nobre torre implantada em terra de vizinhos. Talvez fosse bom propor a quem comprasse que ambos acordassem com a Câmara transformar o pátio em domínio público…
“Casa onde eu caiba, terra quanta eu veja” (Alexandre Herculano)
Paulo pensou que esta ia ser a última frase positiva do seu pai que podia associar à velha torre, como lhe pedira o Paulo Andrade arquiteto para numa lápide de ferro trazer a alma dele àquelas pedras. Talvez o destino que dele herdara fosse fazer uma escada ao alto para transformar a torre num mirante público.
“Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso, onde os pássaros e o tempo fazem ninho”
(Miguel Torga)
Um dia, uns meses depois, estava Paulo a visitar Nova Iorque pela primeira vez, sozinho e, já nas maravilhas da internet transatlântica, recebe uma mensagem desesperada do Sr. Carlos. – D. Paulo, se me puder pôr até amanhã no banco o dinheiro que me ofereceu pela casa, fechamos o negócio. Era como se a pequena e pobre velha torre da família se lhe impusesse à frente, como uma imensa massa cúbica agarrada à terra, transformando os arranha céus à sua volta em fúteis e frágeis agulhas de paisagem. Era a velha torre da família a chamar por ele.

Disse que sim ao Sr. Carlos sem condições. Ligou ao seu fiel primo Paulo Figueiredo que conhecia bem o vizinho para tratar com ele os detalhes. No dia seguinte, a 9 de setembro de 2009, o primo Paulo assinava o contrato de promessa de compra e venda. Um ano depois, a 17 de agosto de 2010, com algumas vicissitudes de permeio, entre as quais um arredondamento generoso do preço acordado para pagar as arcas velhas de madeira que o Sr. Carlos deixara na casa, Paulo assinava a escritura pública que mudou por completo o destino da torre.
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a terra fosse toda uma” (Fernando Pessoa)
Em 17 de setembro de 2012 a Torre de Oriz ou dos Coimbras, incluindo o seu pátio e construções, foi classificada como Monumento de Interesse Público. A dignidade da velha torre estava resgatada.

José Paulo a olhar para a Torre de Oriz, com a casa adossada ao lado ainda de pé (fotografia de José João Rigaud de Sousa, 1984).
Recife, agosto de 2025
Paulo de Lencastre
A linha do tempo
2012 – A 17 de setembro, classificação da Torre e do seu conjunto edificado como Monumento de Interesse Público.
2009 – A 9 de setembro, contrato de promessa de compra e venda da Casa da Renda de Carlos Gomes a Paulo de Lencastre.
1976 – A 16 de março, decreto lei extinguindo os foros em Portugal.
1794 – Construção da casa de habitação em frente à Torre.
16?? – Século XVII, data provável de construção da casa adossada à Torre.
1530 – A 16 de fevereiro, Dr. João de Coimbra, fundador da casa e capela dos Coimbras em Braga, compra a Torre de Oriz.
13?? – Século XIV, data provável de construção da Torre (Rigaud de Sousa, 1984).




Projeto de escada e cobertura para a Torre de Oriz em 2025.






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